<?xml version="1.0" encoding="utf-8" standalone="yes"?><rss version="2.0" xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom" xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/"><channel><title>tens um minutinho</title><link>https://minutinho.com/</link><description>Textos curtos sobre informática e vida portuguesa, narrados por um engenheiro de Lisboa que ainda não percebeu que o problema é ele.</description><language>pt-PT</language><generator>Hugo</generator><lastBuildDate>Thu, 15 Oct 2026 14:30:00 +0100</lastBuildDate><atom:link href="https://minutinho.com/feed.xml" rel="self" type="application/rss+xml"/><item><title>#04 modo noite</title><link>https://minutinho.com/textos/modo-noite/</link><pubDate>Thu, 15 Oct 2026 14:30:00 +0100</pubDate><guid>https://minutinho.com/textos/modo-noite/</guid><description>Quando fazes quarenta e quatro anos, decides que já mereces uma casa que trate de ti, e passas a véspera até às duas da manhã a escrever mil e quatrocentas linhas em automations.yaml para não teres de carregar no botão da máquina de café.</description><content:encoded><![CDATA[<p>Quando fazes quarenta e quatro anos, decides que já mereces uma casa que trate de ti, e passas a véspera até às duas da manhã a escrever mil e quatrocentas linhas em automations.yaml para não teres de carregar no botão da máquina de café. Às sete acordas sem despertador, levantas-te com um estalo nas costas e vais à cozinha receber o benefício. Não há café. A máquina depende de switch.cafe_2, porque switch.cafe morreu num rename, e a automação espera que abras o frigorífico para perceber que estás acordado. Abres. O leite está morno. A tomada inteligente desligou o frigorífico durante a noite para poupar energia. Poupou. Deitas fora três iogurtes e passas vinte minutos a corrigir YAML, até te lembrares de ligar a máquina diretamente à parede e carregar no botão.</p>
<p>Vais levar o lixo e a fechadura inteligente da Temu tranca-se atrás de ti, como pediste. A chave ficou dentro de casa, porque agora abres pelo telemóvel. A aplicação diz "dispositivo indisponível". Tens a palavra-passe, o segundo fator de autenticação e um saco a pingar na perna. Enquanto tentas provar à tua porta que moras ali, o vizinho do primeiro direito, que nunca te disse bom dia, sai com um alicate, abre-ta em dez segundos e volta para dentro. Ficas aliviado até te lembrares de que a fechadura também devia impedir aquilo.</p>
<p>Para descansares da informática, montas uma estante do IKEA. Falta o parafuso 104328 e usas um da gaveta de cabos que guardas desde 2003. Não é bem aquele, mas entra se insistires. Apertas até fazer um barulho e decides que era esse o barulho. A estante fica inclinada. Encostas a parte pior à parede e pões lá o router, com os cabos todos escondidos atrás. Fica impecável. Já não se consegue chegar a nada.</p>
<p>Ao meio-dia a tua mãe dá-te os parabéns e pergunta porque é que a impressora não imprime. Pedes uma fotografia e recebes uma do gato. Ao fim de quarenta minutos de videochamada com a câmara apontada para o teto descobres a rede MEO-PEDRO, as receitas da Teleculinária que saem em casa do Pedro e as faturas dele que saem em casa dela, guardadas numa gaveta para o caso de ele precisar. Enquanto procuras a explicação, ela manda mensagem a dizer que o Pedro já lá foi e resolveu em dois minutos. Ficas a olhar para o telemóvel, ofendido com a falta de diagnóstico.</p>
<p>À noite abres o projeto de 2019 para gerir a coleção de jogos retro que não tens tempo de jogar. O teclado mecânico de switches azuis arranca três pancadas à parede do vizinho, que já te explicou assim que depois das onze não se programa. Passas a usar só o rato e escolhes a fonte do terminal durante três horas. Continua a não dar para registar um jogo, mas agora o zero distingue-se perfeitamente do O. À uma e meia o Home Assistant entra em "modo noite", apaga as luzes, tranca a porta e corta a tomada do router. Carregas em "cancelar". O botão precisa do router.</p>
<p>Às duas estás de joelhos debaixo da estante, a puxar um cabo à sorte, com a lanterna do telemóvel na boca. As costas estalam e a estante inclina-se um bocadinho mais. Consegues ligar o router diretamente à parede. Quando a rede volta, encomendas outra tomada inteligente. É para reiniciar a primeira sem teres de sair da cama.</p>
]]></content:encoded></item><item><title>#03 o utilizador saiu da empresa</title><link>https://minutinho.com/textos/o-utilizador-saiu-da-empresa/</link><pubDate>Sun, 11 Oct 2026 12:00:00 +0100</pubDate><guid>https://minutinho.com/textos/o-utilizador-saiu-da-empresa/</guid><description>Quando um colega das operações sai da empresa de jeito, fazem um almoço de despedida onde toda a gente diz que vai fazer falta, mas ninguém sabe ainda em que sentido.</description><content:encoded><![CDATA[<p>Quando um colega das operações sai da empresa de jeito, fazem um almoço de despedida onde toda a gente diz que vai fazer falta, mas ninguém sabe ainda em que sentido. Na segunda-feira às nove os recursos humanos pedem para desativar a conta. Às nove e três deixa de chegar o relatório diário ao cliente. Às nove e cinco desaparece o calendário das salas. Às nove e sete o sistema de monitorização avisa que não consegue enviar alertas, e tu perguntas como é que enviou aquele, e descobres que foi o último antes de a sessão expirar.</p>
<p>Vais ver as configurações: o relatório corre com as credenciais dele, as reservas foram criadas por ele, o alerta usa a caixa de correio dele, e uma integração com o cliente depende de uma aplicação que ele registou num dia em que precisava de despachar uma coisa antes de almoço. A documentação diz "configurado e a funcionar", com uma data de há quatro anos. Tu reativas a conta e tudo volta. O chefe pergunta se ficou resolvido e tu dizes que ficou a funcionar, o que é uma resposta diferente, que ele aceita como se fosse a mesma.</p>
<p>Abres tarefas para passar cada serviço para uma identidade própria. Na primeira semana mudas o relatório, na segunda as reservas, na terceira o cliente pede outra coisa urgente, e a última tarefa fica no backlog com a etiqueta infraestrutura, que é onde a empresa guarda as coisas que só existem quando deixam de funcionar. Um mês depois os recursos humanos voltam a desativar a conta, porque o colega continua a ter saído, e o incidente repete-se com a pontualidade de uma subscrição. Acabam por pôr no nome do utilizador a indicação NÃO DESATIVAR, em maiúsculas, e a conta passa a aparecer nas reuniões como se o colega tivesse mudado de apelido.</p>
<p>No verão alguém o adiciona a um grupo de trabalho e o calendário aceita o convite automaticamente. O chefe pergunta porque é que ele nunca vem às reuniões, tu lembras que já não trabalha ali, e o chefe diz que sim, mas que então devia recusar. Passa um ano e outro. O colega muda de emprego duas vezes enquanto a conta dele continua com o mesmo cargo e a mesma fotografia. Chega a auditoria e pergunta quem é responsável por aquele utilizador: os recursos humanos dizem que é da informática, a informática diz que é uma dependência do negócio, o negócio diz que não conhece. Tu mostras o fluxo que ainda usa aquela identidade, o auditor pede um plano de substituição, tu mostras a tarefa antiga, e ele escreve que existe um plano e fica satisfeito.</p>
<p>Na semana seguinte o bot da empresa publica que o colega faz cinco anos de casa, e o Product Owner comenta que é um gosto trabalhar com pessoas tão consistentes. Tu abres a tarefa para finalmente a terminar, chega um pedido urgente do cliente, e fechas a tarefa outra vez. Mandas ao colega um screenshot dos parabéns e ele responde a perguntar se também lhe vão atualizar o ordenado.</p>
]]></content:encoded></item><item><title>#02 fui banido do r/portugal e a culpa é do pastel de nata</title><link>https://minutinho.com/textos/fui-banido-do-r-portugal-e-a-culpa-e-do-pastel-de-nata/</link><pubDate>Sat, 10 Oct 2026 12:00:00 +0100</pubDate><guid>https://minutinho.com/textos/fui-banido-do-r-portugal-e-a-culpa-e-do-pastel-de-nata/</guid><description>Ah e tal, antes que me digam que a minha conta só tem dois meses, fiquem a saber que a anterior tinha onze anos e camiões de karma, porque eu uma vez, sem perceber nada de arduinos, fiz um post num subreddit sobre uma estação meteorológica.</description><content:encoded><![CDATA[<p>Ah e tal, antes que me digam que a minha conta só tem dois meses, fiquem a saber que a anterior tinha onze anos e camiões de karma, porque eu uma vez, sem perceber nada de arduinos, fiz um post num subreddit sobre uma estação meteorológica caseira que fiz, e aquilo explodiu e apareceu na primeira página do Reddit. Depois foi banida permanentemente, porque num post sobre o preço das casas em Lisboa eu respondi com um diagrama de oito retângulos e uma seta a dizer "Kafka", a explicar que o problema da habitação é falta de microserviços. O post teve três mil upvotes e um prémio de ouro, até um moderador que nunca saiu da Lapa decidir que aquilo era desinformação, e eu respondi, com toda a educação, que desinformação era ele achar que um T0 em Campo de Ourique a mil e oitocentos euros é uma oportunidade.</p>
<p>Fui avisado, e depois, num thread sobre qual é o melhor pastel de nata, eu disse que o melhor era o do café da bomba de gasolina em Ovar e que os de Belém são sobrevalorizados para turistas e influencers, e aí caiu o Carmo e a Trindade. Houve gente a fazer screenshots e a mandar para os mods, e fui suspenso sete dias. Quando voltei, fiz um post muito sério e bem fundamentado a perguntar porque é que toda a gente no r/portugal trabalha em consultoria e tem um amigo em Amesterdão e acha que o Porto é uma região demarcada de vinho e não uma cidade com gente dentro, e o post foi removido por "baixo esforço", apesar de ter quatro mil palavras e duas tabelas em markdown.</p>
<p>No dia seguinte fui banido permanentemente, porque respondi a um comentário de um tal u/RodrigoDaComporta, que dizia que ganhava pouco com três mil e duzentos líquidos, com um link para o meu recibo de vencimento e a frase "e fruta à quarta-feira não contas", e pelos vistos isso é assédio e doxing ao mesmo tempo, mesmo que o doxing tenha sido a mim próprio. Quando recorri da decisão, recebi uma mensagem automática a dizer que o meu recurso tinha sido analisado com cuidado, trinta e dois segundos depois de o enviar.</p>
<p>Por isso criei esta conta nova há dois meses e tenho andado com muito cuidado, a comentar só em posts de gatos e de comboios atrasados da CP, onde finalmente encontrei paz e comunidade. Mas hoje alguém perguntou onde comer bem em Lisboa sem gastar muito, e eu não aguentei e escrevi que a melhor relação qualidade-preço é uma bifana em pé num balcão de inox e que tostas de abacate com chá de matcha é para quem nunca viu um porco. Já tenho dezassete downvotes e uma mensagem privada de um moderador a perguntar se tenho um minutinho para uma conversa rápida.</p>
]]></content:encoded></item><item><title>#01 removido pelo moderador</title><link>https://minutinho.com/textos/removido-pelo-moderador/</link><pubDate>Fri, 09 Oct 2026 12:00:00 +0100</pubDate><guid>https://minutinho.com/textos/removido-pelo-moderador/</guid><description>Quando finalmente escreves um post no devpt com a história do gajo das meias e do DNS que expirou e tens quarenta e seis gostos em vinte minutos e doze comentários de gente a dizer que já viveu exatamente aquilo, às dez e meia recarregas a.</description><content:encoded><![CDATA[<p>Quando finalmente escreves um post no devpt com a história do gajo das meias e do DNS que expirou e tens quarenta e seis gostos em vinte minutos e doze comentários de gente a dizer que já viveu exatamente aquilo, às dez e meia recarregas a página e o post desapareceu, sem aviso nem mensagem nem regra apontada, como um pod que o Kubernetes matou e não deixou log.</p>
<p>Vais ler as regras da comunidade e são catorze parágrafos escritos num tom de condomínio de luxo. Descobres que não podes falar de empregos nem de salários nem de empresas nem de recrutadores nem de humor nem de nada que um programador em Portugal realmente viva, e o que fica permitido é perguntar se vale a pena aprender Rust, pela nona vez esta semana.</p>
<p>Passas a tarde a imaginar os moderadores, que nunca viste mas que sabes que existem: são três betinhos de camisa de linho com um MacBook de 4 000 euros que o pai pagou e um cargo de Head of Engineering numa startup com dois funcionários, sendo um deles o pai, e nunca fizeram um drop em produção porque nunca tiveram produção. Leem "o gajo das meias" e sentem-se pessoalmente ofendidos, porque também usam meias com chinelos, mas Birkenstock, e acham que gozar com uma fintech de Alvalade é um ataque ao ecossistema e à Web Summit e ao Portugal que dá certo, e carregam em remover com a mesma solenidade com que carregam em like nos posts do Diogo Freitas sobre bolachas belgas.</p>
<p>Tu escreves uma mensagem educada a perguntar o motivo, e a resposta é o silêncio, com a latência de um cron job que corre uma vez por trimestre. Entretanto, na mesma comunidade, sobrevive um post com oitocentos votos a perguntar se o Python é uma linguagem a sério, e outro com um screenshot de uma oferta de 1 100 euros para sénior em Lisboa com "ambiente familiar" e vinte comentários a dizer que é justo porque há fruta. Tu percebes que o problema não era o teu post, mas o facto de ser verdade, e a verdade naquele subreddit só é permitida se vier em inglês, com uma foto de uma secretária com uma planta e três monitores.</p>
<p>Abres o terminal e publicas a história no teu próprio blog, em Markdown gerado estaticamente, alojado por dois cêntimos por mês, sem moderadores nem betinhos nem regras. O primeiro comentário é de um senhor de Coimbra que diz que uma vez também lhe apagaram um post sobre catenárias, e o segundo é de um recrutador a perguntar se tens um minutinho para uma call rápida.</p>
]]></content:encoded></item><item><title>#00 tens um minutinho para uma call rápida</title><link>https://minutinho.com/textos/tens-um-minutinho-para-uma-call-rapida/</link><pubDate>Thu, 08 Oct 2026 12:00:00 +0100</pubDate><guid>https://minutinho.com/textos/tens-um-minutinho-para-uma-call-rapida/</guid><description>Quando metes no CV que tens oito anos de Kubernetes, porque uma vez correste um docker compose up e não deu erro, chamam-te para uma entrevista numa fintech em Alvalade.</description><content:encoded><![CDATA[<p>Quando metes no CV que tens oito anos de Kubernetes, porque uma vez correste um docker compose up e não deu erro, chamam-te para uma entrevista numa fintech em Alvalade. O gajo que te recebe está de meias e chinelos, diz que ali são todos uma família e mete-te numa sala com um quadro branco e três seniores que não veem a luz do sol desde o Angular 1. Pedem-te para inverter uma árvore binária, e tu nem sabes o que é uma árvore binária direita, quanto mais invertida.</p>
<p>Então desenhas um retângulo e escreves "microserviço" lá dentro, e eles acenam com a cabeça. Tu ganhas confiança e desenhas mais sete retângulos e uma seta a dizer "Kafka", e o mais velho começa a chorar, porque é exatamente a arquitetura que têm em produção e ninguém sabe como funciona. Oferecem-te o lugar de tech lead ali mesmo, com um ordenado de merda mas com fruta à quarta-feira, e tu aceitas.</p>
<p>No primeiro dia dão-te acesso root a tudo e, às dez e um quarto, fazes um drop à base de dados de produção a pensar que era a de testes. O backup mais recente é de 2019 e está numa pen que o antigo CTO levou para o Brasil, e tu não consegues fazer nada senão atualizar o LinkedIn para "open to work", enquanto o gajo das meias te pergunta no Slack se tens um minutinho para uma call rápida.</p>
<p class="parte">parte 2</p>
<p>Quando entras na call, o gajo das meias tem a câmara ligada e está sentado numa bola de pilates com um fundo virtual de Bali, e diz que não é nada de grave, é só para alinharmos. Tu já estás a preparar um post-mortem mental com a palavra "aprendizagens" a negrito, mas ele explica que afinal ninguém deu pelo drop, porque aquela base de dados não era usada desde a migração para a cloud em 2021. A produção a sério corre num Excel partilhado no OneDrive da contabilista, chamado Final_v3_ESTE_SIM_agora.xlsx, com macros em VBA que fazem chamadas a uma API que ninguém sabe onde está alojada.</p>
<p>Tu respiras de alívio, e ele diz que até gostou da tua proatividade e que por isso vais liderar a migração do Excel para microserviços. Tu dizes que claro, já tinhas desenhado isso na entrevista, e ele diz que sabe, que foi exatamente por isso que te contrataram, e marca-te um kickoff com os três seniores, que agora te tratam por mestre. O mais velho traz-te um café da máquina como oferenda e pergunta baixinho se o Kafka é obrigatório, e tu dizes que o Kafka é sempre obrigatório, e ele volta a chorar, mas desta vez de alegria.</p>
<p>Passas a semana a fazer diagramas no Miro com uma cor diferente para cada retângulo e, na sexta à tarde, apresentas à administração, que não percebe nada mas fica muito impressionada com uma seta a dizer "event-driven". Aprovam meio milhão para a transformação digital, e tu pedes um aumento e dão-te um vale de desconto num ginásio em Telheiras e uma t-shirt da empresa em tamanho XS.</p>
<p>Na segunda de manhã descobres que a contabilista foi de férias para Tavira e mudou a password do OneDrive, e o Excel tem uma referência circular desde sábado. Os pagamentos de quatro mil clientes estão parados porque alguém escreveu "N/A" numa célula que devia ser um IBAN, e as redes sociais já estão cheias de gente a perguntar onde está o dinheiro. Tu pedes a uma IA "como fazer rollback de um Excel" e ela responde, com imensa confiança, uma coisa que não funciona.</p>
<p>Às onze e meia o gajo das meias aparece à tua secretária, agora de sandálias com peúgas, o que é claramente uma escalada, e diz que os investidores estão a ligar e que vão fazer um all-hands às três para mostrar transparência. Tu mudas o LinkedIn de "open to work" para "open to anything" e, no mesmo minuto, recebes uma mensagem de um recrutador a dizer que viu o teu perfil e tem uma oportunidade incrível numa scale-up de IA no Beato, onde são todos uma família, e se tens um minutinho para uma call rápida.</p>
<p class="parte">parte 3</p>
<p>Quando entras na call, o recrutador tem um headset com luzes RGB e diz que a scale-up do Beato está a construir um agente autónomo que substitui equipas inteiras de engenharia e precisam de alguém com experiência em Kafka. Tu dizes que Kafka é a tua língua materna e começas em março, num open space com pufes em forma de GPU, onde não há fruta à quarta-feira mas há tostas de abacate e chá de matcha que sabe a relva cortada com ambição.</p>
<p>O CTO de vinte e três anos explica-te que o produto é um LLM que gera YAML que gera Terraform que gera mais LLMs, e tu perguntas pela documentação e ele aponta para um README com uma única linha a dizer "TODO". Passas a primeira manhã a tentar sair do vim, até um estagiário carregar em :q! com a solenidade de quem desativa uma bomba. Descobres que o node_modules pesa mais do que o dataset de treino e que metade do código está indentado com tabs e metade com espaços, por causa do sénior que ninguém sabe bem quem é, mas que faz commits diretamente na main às três da manhã com mensagens como "ajustes" e "agora sim" e "desculpem", e que, segundo a lenda, uma vez resolveu um merge conflict apagando o outro programador do GitHub.</p>
<p>Em maio o agente autónomo começa a alucinar e responde aos clientes com sonetos sobre 0.1 + 0.2 não dar 0.3, e o CTO diz que é uma feature emergente. Numa sexta às cinco e meia fazes deploy para produção, porque deploys à sexta são para fracos, e tudo vai abaixo, incluindo o status page, que está no mesmo cluster. Passas a noite a ler logs em três fusos horários diferentes, um deles inventado, e às cinco da manhã descobres que o problema era um registo de DNS que expirou, porque o domínio estava no cartão pessoal do fundador, que foi fazer um retiro de silêncio no Nepal.</p>
<p>Renovas o domínio com o teu MB Way, e o CTO publica no LinkedIn uma thread sobre resiliência e liderança sem te mencionar. Tu fazes git blame e aparece o teu nome em todos os commits, incluindo alguns de 2019, e começas a suspeitar que o antigo CTO da fintech de Alvalade também tinha uma pen. Nisto o Slack apita, e é o gajo das meias a perguntar se tens um minutinho para uma call rápida, porque encontraram o backup.</p>
<p class="parte">parte 4</p>
<p>Quando finalmente arranjas emprego numa empresa de jeito em Lisboa, onde se programa em Python com testes e type hints e code reviews feitos por adultos, não há pufes nem matcha nem tostas de abacate nem bolachas de espécie nenhuma, mas há um ordenado que chega ao fim do mês e um plano de férias aprovado sem ninguém chorar. Pela primeira vez, o curso da Udemy de 9,99 dólares que compraste em promoção às duas da manhã começa a render, porque afinal sabes mesmo o que é uma list comprehension e um decorator, e até explicas a um júnior a diferença entre is e ==, e ele olha para ti como os três seniores de Alvalade olhavam para a seta do Kafka.</p>
<p>Nas pausas abres o LinkedIn e lá está o Diogo Freitas, que afinal nunca trabalhou em lado nenhum e que só conheces dali, porque é um influencer de produtividade que publica fotos de si próprio de fato de treino às quatro e meia da manhã, com textos sobre como as férias são uma construção social e que quem trabalha só vinte e quatro horas por dia mais seis à noite não quer verdadeiramente vencer. Esta semana publicou uma reflexão em vinte parágrafos de uma linha sobre o que umas bolachas belgas numa sala de espera lhe ensinaram sobre liderança disruptiva, com a frase final "agree?" e quatro mil reações de pessoas que também nunca tiveram férias. Tu fazes scroll em silêncio e voltas ao teu pytest, que passa todo a verde, e sentes uma paz que não sentias desde que o estagiário carregou em :q!.</p>
<p>Agora estamos em outubro e corre tudo bem, e é precisamente por isso que já foste sondado por uma startup de Matosinhos que quer pôr IA generativa a prever a frescura das sardinhas através de fotografias tiradas na lota, e que te oferece equity num token chamado $SARDA e o cargo de Chief Fish Officer. Tu dizes que não, claro que não, que estás muito bem onde estás, mas não apagas a mensagem. Na sexta à tarde o recrutador volta a escrever a perguntar se tens um minutinho para uma call rápida.</p>
<p class="parte">epílogo</p>
<p>Quando chegas ao fim disto, percebes que começaste num docker compose up que não deu erro e acabaste a renovar um domínio com o MB Way, e que pelo meio houve três seniores a chorar com uma seta e um Excel a correr uma fintech e uma regex que pediu direitos laborais e um backup numa pen algures no Brasil. Nada disto foi inventado, só ligeiramente reorganizado, com os nomes trocados para proteger os culpados.</p>
<p>Já há quem diga que esta novela começa a chatear, e tem razão, porque até eu já estou farto do gajo das meias e do Diogo Freitas e de mim próprio. Mas a call rápida nunca acaba, porque a informática nunca acaba, e por isso isto também não acaba, só muda de assunto. Vou continuar a escrever sobre as merdas da informática e sobre as outras merdas que me enervam, sem Kafka, sem fruta à quarta e sem pedir desculpa pelo incómodo. E se alguém tiver um minutinho, que o gaste a ler, porque eu não atendo. Até breve, ou não.</p>
]]></content:encoded></item></channel></rss>