#10 · segunda, 2 de novembro de 2026 · 468 palavras, dois minutinhos
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Quando nasces em 1982 numa vila que não aparece no Google Maps sem fazer zoom, aos seis anos recebes um ZX Spectrum em segunda mão e passas a infância a ouvir cassetes a carregar jogos durante dez minutos, com aquele barulho de fax em sofrimento, para depois o jogo bloquear no último segundo. Aprendes a primeira grande lição da informática, que é que nada funciona à primeira. Aos dezasseis vais à Expo 98 e a única coisa de que te lembras é de uma fila de três horas para um pavilhão e de achar que o futuro ia ser aquilo. No fim de 1999 passas a passagem de ano com o teu PC de Windows 98 desligado da corrente, com medo do bug do ano 2000, e à meia-noite e um minuto ligas tudo e não acontece nada e ficas ligeiramente desiludido.
Entras para um curso de engenharia onde te ensinam Pascal como se fosse a linguagem do futuro e passas as noites no mIRC e no MSN Messenger com um nickname cheio de asteriscos e letras trocadas que hoje te persegue em pesadelos. Tens um Nokia 3310 que sobrevive a três quedas na estrada e a uma máquina de lavar. Em 2004 choras com a final do Euro contra a Grécia com uma intensidade que nunca mais vais sentir com nada, exceto talvez um deploy à sexta-feira. O primeiro emprego é no suporte técnico, a dizer às pessoas para desligarem e voltarem a ligar, e funciona sempre, o que te faz duvidar de toda a engenharia. Passas para PHP e jQuery e fazes sites com Flash que hoje não abrem em lado nenhum.
Em 2011 chega a troika e o ordenado encolhe, e o cabelo também. Por desespero descobres o Python e apaixonas-te pela indentação como quem descobre a ordem do universo. Em 2016 Portugal ganha o Euro e tu festejas na rua com desconhecidos e prometes que vais finalmente migrar tudo para Python 3, e só o fazes em 2020, quando o Python 2 morre oficialmente e o mundo fecha em casa por causa da pandemia. Tu descobres que já trabalhavas remotamente há anos sem saber e fazes pão de massa-mãe como toda a gente, e a massa-mãe morre antes de acabares a migração.
Aos quarenta chega o ChatGPT e passas um fim de semana inteiro convencido de que vais perder o emprego e outro fim de semana convencido de que vais ficar rico, e não acontece nenhuma das duas.
Hoje tens quarenta e quatro anos e umas costas que estalam e um teclado mecânico proibido depois das onze, e ainda guardas uma cassete do Spectrum numa gaveta porque um dia pode fazer falta. Quando te perguntam no LinkedIn qual é a tua maior conquista, respondes com sinceridade que foi conseguir sair do vim à primeira.
quando nasces em 1982 numa vila que não aparece no Google Maps sem fazer zoom e aos seis anos recebes um ZX Spectrum em segunda mão e passas a infância a ouvir cassetes a carregar jogos durante dez minutos com aquele barulho de fax em sofrimento para depois o jogo bloquear no último segundo e aprendes a primeira grande lição da informática que é que nada funciona à primeira e aos dezasseis vais à Expo 98 e a única coisa de que te lembras é de uma fila de três horas para um pavilhão e de achar que o futuro ia ser aquilo e no fim de 1999 passas a passagem de ano com o teu PC de Windows 98 desligado da corrente com medo do bug do ano 2000 e à meia-noite e um minuto ligas tudo e não acontece nada e ficas ligeiramente desiludido e entras para um curso de engenharia onde te ensinam Pascal como se fosse a linguagem do futuro e passas as noites no mIRC e no MSN Messenger com um nickname cheio de asteriscos e letras trocadas que hoje te persegue em pesadelos e tens um Nokia 3310 que sobrevive a três quedas na estrada e a uma máquina de lavar e em 2004 choras com a final do Euro contra a Grécia com uma intensidade que nunca mais vais sentir com nada exceto talvez um deploy à sexta-feira e o primeiro emprego é no suporte técnico a dizer às pessoas para desligarem e voltarem a ligar e funciona sempre o que te faz duvidar de toda a engenharia e passas para PHP e jQuery e fazes sites com Flash que hoje não abrem em lado nenhum e em 2011 chega a troika e o ordenado encolhe e o cabelo também e por desespero descobres o Python e apaixonas-te pela indentação como quem descobre a ordem do universo e em 2016 Portugal ganha o Euro e tu festejas na rua com desconhecidos e prometes que vais finalmente migrar tudo para Python 3 e só o fazes em 2020 quando o Python 2 morre oficialmente e o mundo fecha em casa por causa da pandemia e tu descobres que já trabalhavas remotamente há anos sem saber e fazes pão de massa-mãe como toda a gente e a massa-mãe morre antes de acabares a migração e aos quarenta chega o ChatGPT e passas um fim de semana inteiro convencido de que vais perder o emprego e outro fim de semana convencido de que vais ficar rico e não acontece nenhuma das duas e hoje tens quarenta e quatro anos e umas costas que estalam e um teclado mecânico proibido depois das onze e ainda guardas uma cassete do Spectrum numa gaveta porque um dia pode fazer falta e quando te perguntam no LinkedIn qual é a tua maior conquista respondes com sinceridade que foi conseguir sair do vim à primeira
