#08 · domingo, 25 de outubro de 2026 · 585 palavras, três minutinhos
Europe/Lisbon

Quando hoje, último domingo de outubro, acordas e o telemóvel diz seis e o relógio da parede diz sete, e durante um segundo não sabes em qual dos dois confiar, lembras-te de que a mudança da hora é o único bug que a Europa inteira faz de propósito, duas vezes por ano, com data marcada e Diário da República, e que o teu trabalho é escrever software que finja que isso não acontece. O telemóvel mudou sozinho, o portátil também, o forno não, o carro não, e o rádio da cozinha ficou a meio, a piscar, porque é assim que um sistema sem fonte de tempo fiável reage à dúvida.
O teu sistema também tem um relógio de parede. Em 2019 escreveste um job que fecha o dia à uma e meia da manhã, "porque a essa hora ninguém usa isto", e agendaste-o em hora local porque o servidor estava em hora local e tu também. No último domingo de outubro, quando às duas voltam a ser uma, a uma e meia acontece duas vezes e o job corre duas vezes e fecha o dia duas vezes; no último domingo de março a uma e meia não existe e o job não corre. Esta noite correu duas vezes, como todos os anos. Já foste acordado de madrugada pelas duas razões, em anos diferentes, pelo mesmo código. O ticket "migrar para UTC" está aberto desde 2019, abaixo de "mudar a cor do botão", e esta manhã já lá está o comentário deste ano, "isto outra vez", de alguém que a seguir fechou o separador.
Vais ler o ficheiro Europe/Lisbon do tzdata, que é a única base de dados do mundo com commits por causa de ministros. Está lá tudo: Portugal esteve na hora de Espanha de 1992 a 1996, por decreto-lei, para ficar mais perto dos parceiros europeus, e voltou atrás por outro decreto-lei porque as crianças iam para a escola de noite e a poupança de eletricidade não apareceu. Em 2019 o Parlamento Europeu votou acabar com a mudança da hora, o Conselho nunca mais pegou no assunto, e tu respeitas isso, porque também tens um ticket assim. Os Açores estão uma hora atrás e a tua query de relatórios não sabe, por isso o cliente de Ponta Delgada recebe todos os anos uma fatura datada de uma hora que para ele ainda não chegou.
Em casa a domótica é toda em hora local, porque foste tu que a fizeste, e hoje as luzes da sala acendem às cinco e meia com sol, o aspirador arranca uma hora mais cedo e vem bater-te à porta do quarto, a máquina do café aquece para ninguém e o gato acorda-te à hora antiga, porque ninguém lhe fez o deploy, e vai continuar a acordar-te à hora antiga durante uma semana, que é o tempo de rollout de um gato. Passas a manhã a corrigir relógios de aparelhos que não têm botões para isso, e o forno fica para a próxima, como fica todos os anos, e durante cinco meses sabes que a hora do forno é a hora certa mais uma, e isso também é um fuso horário.
Amanhã o dashboard tem uma barra com o dobro dos valores entre a uma e as duas e o Product Owner pergunta se foi um pico de utilização. Vais dizer que sim. Em março o telemóvel não vai tocar à uma e meia. É o único dia do ano em que o teu código não falha, porque não corre.
