#05 · sexta, 16 de outubro de 2026 · 670 palavras, três minutinhos
minutinho.com

Quando o ficheiro dos rants deixa de caber num ecrã, um .txt com BOM que abres mais vezes do que o Jira, decides que já não é um ficheiro, é um backlog, e que um backlog sem deploy é só um diário. Abres um Excel para comparar plataformas, como fazes com tudo o que vais acabar por decidir pelo instinto, e à terceira coluna já tens doze linhas e a certeza de que o Medium tem paywall, o Substack quer o teu e-mail e o dos teus leitores, o WordPress precisa de PHP, e PHP já deste.
Passas a sexta à noite a escolher o gerador de sites estáticos como quem escolhe mota: por especificação e não por necessidade. O Hugo ganha porque é um binário único que pões no PATH do servidor Linux sem pedir Node nem Python nem uma conta, e que gera o site inteiro para uma pasta chamada public em menos de um segundo, o que é menos tempo do que o Teams leva a abrir uma mensagem. Às duas da manhã tens um tema feito do zero com um só ficheiro CSS, modo escuro pelo sistema sem botão, um feed RSS com o texto inteiro e zero comentários, porque a conversa fica no Reddit, que já provou ter moderadores suficientes. Analytics do Cloudflare sem cookies, logo sem banner, logo sem o rant sobre banners, que ficou sem razão de existir e é a primeira vítima do projeto.
O domínio é minutinho.com, porque "tens um minutinho" era comprido e levava acentos, e o DNS leva quatro horas a propagar, que passas a fazer dig a cada cinco minutos como quem carrega no botão do elevador. O script que lê a pasta e gera o conteúdo é Python, cento e quarenta linhas, e funciona à primeira, o que te deixa mais desconfiado do que qualquer erro. Fazes push, o hook corre o hugo, o nginx serve a pasta public, e a página abre no telemóvel com dados móveis fracos no primeiro intento. Ficas a olhar para ela durante um minuto inteiro à espera de um 502 que não vem.
Depois decides que um site sem imagens parece um README, e cada rant ganha uma ilustração. Pedes ao modelo uma imagem por texto, e ele devolve PNGs de dois megas e meio cada, o que faz com que a pasta das imagens pese mil vezes mais do que a pasta dos textos, que é a proporção habitual entre o que escreves e o que as pessoas olham. O Hugo converte-as para WebP no build e o build passa de menos de um segundo para o tempo de um café, e tu aceitas, porque a imagem do rant do gato tem mesmo um gato preto e branco em cima de um teclado, com o número de teclas certo, e a do Max tem um cão que só quer estar onde não está.
O primeiro visitante chega às onze e doze da noite e é o Googlebot. O segundo é o Bingbot. O terceiro és tu de outra rede, a confirmar que não é cache. Decides que vai sair um rant à terça e outro à sexta às oito da manhã, por cron, porque o que já está escrito dá para meses de publicação sem escreveres uma linha nova, e é a primeira vez na vida que tens um projeto pessoal em produção com mais conteúdo do que bugs. Cada texto tem um seletor para a versão com pontos e a versão sem pontos, a original, para que quem gosta de pontuação e quem gosta de respirar possam discordar no mesmo endereço.
Os textos novos vão para lá, a pasta continua no disco e o feed está em minutinho.com/index.xml, porque é assim que o Hugo lhe chama e tu não vais discutir com um binário às três da manhã. Adicionas o feed ao teu próprio leitor de RSS, para teres a certeza de que há pelo menos um subscritor, e o leitor diz "0 novos itens", porque já leste tudo.
