#04 · quinta, 15 de outubro de 2026 · 564 palavras, três minutinhos
modo noite

Quando fazes quarenta e quatro anos, decides que já mereces uma casa que trate de ti, e passas a véspera até às duas da manhã a escrever mil e quatrocentas linhas em automations.yaml para não teres de carregar no botão da máquina de café. Às sete acordas sem despertador, levantas-te com um estalo nas costas e vais à cozinha receber o benefício. Não há café. A máquina depende de switch.cafe_2, porque switch.cafe morreu num rename, e a automação espera que abras o frigorífico para perceber que estás acordado. Abres. O leite está morno. A tomada inteligente desligou o frigorífico durante a noite para poupar energia. Poupou. Deitas fora três iogurtes e passas vinte minutos a corrigir YAML, até te lembrares de ligar a máquina diretamente à parede e carregar no botão.
Vais levar o lixo e a fechadura inteligente da Temu tranca-se atrás de ti, como pediste. A chave ficou dentro de casa, porque agora abres pelo telemóvel. A aplicação diz "dispositivo indisponível". Tens a palavra-passe, o segundo fator de autenticação e um saco a pingar na perna. Enquanto tentas provar à tua porta que moras ali, o vizinho do primeiro direito, que nunca te disse bom dia, sai com um alicate, abre-ta em dez segundos e volta para dentro. Ficas aliviado até te lembrares de que a fechadura também devia impedir aquilo.
Para descansares da informática, montas uma estante do IKEA. Falta o parafuso 104328 e usas um da gaveta de cabos que guardas desde 2003. Não é bem aquele, mas entra se insistires. Apertas até fazer um barulho e decides que era esse o barulho. A estante fica inclinada. Encostas a parte pior à parede e pões lá o router, com os cabos todos escondidos atrás. Fica impecável. Já não se consegue chegar a nada.
Ao meio-dia a tua mãe dá-te os parabéns e pergunta porque é que a impressora não imprime. Pedes uma fotografia e recebes uma do gato. Ao fim de quarenta minutos de videochamada com a câmara apontada para o teto descobres a rede MEO-PEDRO, as receitas da Teleculinária que saem em casa do Pedro e as faturas dele que saem em casa dela, guardadas numa gaveta para o caso de ele precisar. Enquanto procuras a explicação, ela manda mensagem a dizer que o Pedro já lá foi e resolveu em dois minutos. Ficas a olhar para o telemóvel, ofendido com a falta de diagnóstico.
À noite abres o projeto de 2019 para gerir a coleção de jogos retro que não tens tempo de jogar. O teclado mecânico de switches azuis arranca três pancadas à parede do vizinho, que já te explicou assim que depois das onze não se programa. Passas a usar só o rato e escolhes a fonte do terminal durante três horas. Continua a não dar para registar um jogo, mas agora o zero distingue-se perfeitamente do O. À uma e meia o Home Assistant entra em "modo noite", apaga as luzes, tranca a porta e corta a tomada do router. Carregas em "cancelar". O botão precisa do router.
Às duas estás de joelhos debaixo da estante, a puxar um cabo à sorte, com a lanterna do telemóvel na boca. As costas estalam e a estante inclina-se um bocadinho mais. Consegues ligar o router diretamente à parede. Quando a rede volta, encomendas outra tomada inteligente. É para reiniciar a primeira sem teres de sair da cama.
quando fazes quarenta e quatro anos e acordas às sete num sábado sem despertador porque o corpo já não sabe dormir até tarde e te levantas com um estalo nas costas que soa a disco rígido de 2006 a arrancar e vais à cozinha e a máquina de café não liga porque ontem à noite entre a meia-noite e as duas escreveste mil e quatrocentas linhas num ficheiro chamado automations.yaml e agora o café depende de uma entidade chamada switch.cafe_2 porque o switch.cafe morreu num rename e o switch.cafe_2 depende do sensor da porta do frigorífico e o frigorífico desligou-se às três da manhã por causa de uma automação chamada "poupança de energia" que copiaste de um fórum e o leite está a dezassete graus e a lâmpada da sala está a 40% porque 41 dava erro e tu passas vinte minutos a fazer debug de YAML de pijama e desistes e vais levar o lixo e a fechadura inteligente da Temu que instalaste às duas e dez só abre se a lâmpada da sala estiver a 100% e a porta fecha-se atrás de ti e ficas na escada de pijama com um saco do lixo e um telemóvel e tentas entrar no Raspberry Pi e o Raspberry Pi mudou de IP porque o router do MEO deu um lease novo às seis e o cartão SD é de 2017 e o fórum diz desde 2019 que vai morrer em breve e enquanto fazes um scan à rede em chinelos o vizinho do outro lado da parede que nunca te disse bom dia sai com um alicate e abre a tua porta em dez segundos e volta para dentro sem dizer nada e tu percebes que acabaste de fazer um drop à produção da tua própria casa e que a produção da tua casa és tu e às dez montas uma estante do IKEA e falta o parafuso 104328 e usas um da gaveta de cabos que guardas desde 2003 porque um dia um cabo PS/2 pode salvar uma vida e ao meio-dia o WhatsApp apita e é a tua mãe a dar-te os parabéns e na mesma mensagem a perguntar porque é que a impressora não imprime e tu pedes uma fotografia e ela manda uma foto da sala onde não aparece a impressora mas aparece o gato dela e fazes quarenta minutos de videochamada com a câmara apontada para o teto e descobres que a impressora está ligada a uma rede Wi-Fi chamada MEO-PEDRO e perguntas quem é o Pedro e ela diz que é o do lado que é muito simpático e às quatro a tua mãe manda outra mensagem a dizer que a impressora já imprime mas noutra casa porque as quarenta páginas de receitas da Teleculinária que mandou imprimir saíram na impressora do Pedro e o Pedro é reformado da EDP e tem o router com a password que vinha na caixa e a tua mãe já lhe tinha pedido o Wi-Fi em 2021 "para o caso de o dela falhar" e às oito a tua mãe manda outra mensagem a dizer que o Pedro veio trazer as receitas e que afinal há um ano que as faturas do Pedro saem na impressora dela e que ela as guardava numa gaveta para o caso de ele precisar e que nenhum dos dois reparou porque ambos acham que a impressora é assim e tu instalas o TeamViewer na tua mãe por telefone e ela lê o código de nove dígitos como quem lê um número de telefone antigo com o indicativo errado e enquanto esperas o Home Assistant decide em casa que são "horas de tarde" e fecha os estores todos porque também escreveste isso ontem e às dez a tua mãe manda a última mensagem do dia a dizer que já está que o Pedro passou lá e resolveu em dois minutos sem fotografia nem videochamada e que perguntou se tu não queres ir lá ver o router dele e que o Pedro tem um filho da tua idade que também é informático mas atende o telefone e tu pousas o telemóvel e à noite depois de o prédio adormecer sentas-te finalmente com o teu teclado mecânico de switches azuis que o vizinho do alicate já proibiu depois das onze batendo três vezes na parede e abres um projeto pessoal que começaste em 2019 para gerir a coleção de jogos retro que nunca tens tempo de jogar e passas três horas a escolher a fonte do terminal e à uma e meia a fonte fica mesmo bonita e nesse segundo o Home Assistant entra em "modo noite" que é a última automação que escreveste ontem e apaga as luzes todas e tranca a porta e desliga o router e tu ficas às escuras em frente a um ecrã com a fonte perfeita e sem Internet e as costas estalam e o telemóvel acende pelos dados móveis e é a tua mãe a dar-te os parabéns outra vez para o caso de a primeira mensagem não ter chegado e a perguntar se o Pedro pode ficar com o teu número
