#00 · quinta, 8 de outubro de 2026 · 1635 palavras, oito minutinhos
tens um minutinho para uma call rápida

Quando metes no CV que tens oito anos de Kubernetes, porque uma vez correste um docker compose up e não deu erro, chamam-te para uma entrevista numa fintech em Alvalade. O gajo que te recebe está de meias e chinelos, diz que ali são todos uma família e mete-te numa sala com um quadro branco e três seniores que não veem a luz do sol desde o Angular 1. Pedem-te para inverter uma árvore binária, e tu nem sabes o que é uma árvore binária direita, quanto mais invertida.
Então desenhas um retângulo e escreves "microserviço" lá dentro, e eles acenam com a cabeça. Tu ganhas confiança e desenhas mais sete retângulos e uma seta a dizer "Kafka", e o mais velho começa a chorar, porque é exatamente a arquitetura que têm em produção e ninguém sabe como funciona. Oferecem-te o lugar de tech lead ali mesmo, com um ordenado de merda mas com fruta à quarta-feira, e tu aceitas.
No primeiro dia dão-te acesso root a tudo e, às dez e um quarto, fazes um drop à base de dados de produção a pensar que era a de testes. O backup mais recente é de 2019 e está numa pen que o antigo CTO levou para o Brasil, e tu não consegues fazer nada senão atualizar o LinkedIn para "open to work", enquanto o gajo das meias te pergunta no Slack se tens um minutinho para uma call rápida.
parte 2
Quando entras na call, o gajo das meias tem a câmara ligada e está sentado numa bola de pilates com um fundo virtual de Bali, e diz que não é nada de grave, é só para alinharmos. Tu já estás a preparar um post-mortem mental com a palavra "aprendizagens" a negrito, mas ele explica que afinal ninguém deu pelo drop, porque aquela base de dados não era usada desde a migração para a cloud em 2021. A produção a sério corre num Excel partilhado no OneDrive da contabilista, chamado Final_v3_ESTE_SIM_agora.xlsx, com macros em VBA que fazem chamadas a uma API que ninguém sabe onde está alojada.
Tu respiras de alívio, e ele diz que até gostou da tua proatividade e que por isso vais liderar a migração do Excel para microserviços. Tu dizes que claro, já tinhas desenhado isso na entrevista, e ele diz que sabe, que foi exatamente por isso que te contrataram, e marca-te um kickoff com os três seniores, que agora te tratam por mestre. O mais velho traz-te um café da máquina como oferenda e pergunta baixinho se o Kafka é obrigatório, e tu dizes que o Kafka é sempre obrigatório, e ele volta a chorar, mas desta vez de alegria.
Passas a semana a fazer diagramas no Miro com uma cor diferente para cada retângulo e, na sexta à tarde, apresentas à administração, que não percebe nada mas fica muito impressionada com uma seta a dizer "event-driven". Aprovam meio milhão para a transformação digital, e tu pedes um aumento e dão-te um vale de desconto num ginásio em Telheiras e uma t-shirt da empresa em tamanho XS.
Na segunda de manhã descobres que a contabilista foi de férias para Tavira e mudou a password do OneDrive, e o Excel tem uma referência circular desde sábado. Os pagamentos de quatro mil clientes estão parados porque alguém escreveu "N/A" numa célula que devia ser um IBAN, e as redes sociais já estão cheias de gente a perguntar onde está o dinheiro. Tu pedes a uma IA "como fazer rollback de um Excel" e ela responde, com imensa confiança, uma coisa que não funciona.
Às onze e meia o gajo das meias aparece à tua secretária, agora de sandálias com peúgas, o que é claramente uma escalada, e diz que os investidores estão a ligar e que vão fazer um all-hands às três para mostrar transparência. Tu mudas o LinkedIn de "open to work" para "open to anything" e, no mesmo minuto, recebes uma mensagem de um recrutador a dizer que viu o teu perfil e tem uma oportunidade incrível numa scale-up de IA no Beato, onde são todos uma família, e se tens um minutinho para uma call rápida.
parte 3
Quando entras na call, o recrutador tem um headset com luzes RGB e diz que a scale-up do Beato está a construir um agente autónomo que substitui equipas inteiras de engenharia e precisam de alguém com experiência em Kafka. Tu dizes que Kafka é a tua língua materna e começas em março, num open space com pufes em forma de GPU, onde não há fruta à quarta-feira mas há tostas de abacate e chá de matcha que sabe a relva cortada com ambição.
O CTO de vinte e três anos explica-te que o produto é um LLM que gera YAML que gera Terraform que gera mais LLMs, e tu perguntas pela documentação e ele aponta para um README com uma única linha a dizer "TODO". Passas a primeira manhã a tentar sair do vim, até um estagiário carregar em :q! com a solenidade de quem desativa uma bomba. Descobres que o node_modules pesa mais do que o dataset de treino e que metade do código está indentado com tabs e metade com espaços, por causa do sénior que ninguém sabe bem quem é, mas que faz commits diretamente na main às três da manhã com mensagens como "ajustes" e "agora sim" e "desculpem", e que, segundo a lenda, uma vez resolveu um merge conflict apagando o outro programador do GitHub.
Em maio o agente autónomo começa a alucinar e responde aos clientes com sonetos sobre 0.1 + 0.2 não dar 0.3, e o CTO diz que é uma feature emergente. Numa sexta às cinco e meia fazes deploy para produção, porque deploys à sexta são para fracos, e tudo vai abaixo, incluindo o status page, que está no mesmo cluster. Passas a noite a ler logs em três fusos horários diferentes, um deles inventado, e às cinco da manhã descobres que o problema era um registo de DNS que expirou, porque o domínio estava no cartão pessoal do fundador, que foi fazer um retiro de silêncio no Nepal.
Renovas o domínio com o teu MB Way, e o CTO publica no LinkedIn uma thread sobre resiliência e liderança sem te mencionar. Tu fazes git blame e aparece o teu nome em todos os commits, incluindo alguns de 2019, e começas a suspeitar que o antigo CTO da fintech de Alvalade também tinha uma pen. Nisto o Slack apita, e é o gajo das meias a perguntar se tens um minutinho para uma call rápida, porque encontraram o backup.
parte 4
Quando finalmente arranjas emprego numa empresa de jeito em Lisboa, onde se programa em Python com testes e type hints e code reviews feitos por adultos, não há pufes nem matcha nem tostas de abacate nem bolachas de espécie nenhuma, mas há um ordenado que chega ao fim do mês e um plano de férias aprovado sem ninguém chorar. Pela primeira vez, o curso da Udemy de 9,99 dólares que compraste em promoção às duas da manhã começa a render, porque afinal sabes mesmo o que é uma list comprehension e um decorator, e até explicas a um júnior a diferença entre is e ==, e ele olha para ti como os três seniores de Alvalade olhavam para a seta do Kafka.
Nas pausas abres o LinkedIn e lá está o Diogo Freitas, que afinal nunca trabalhou em lado nenhum e que só conheces dali, porque é um influencer de produtividade que publica fotos de si próprio de fato de treino às quatro e meia da manhã, com textos sobre como as férias são uma construção social e que quem trabalha só vinte e quatro horas por dia mais seis à noite não quer verdadeiramente vencer. Esta semana publicou uma reflexão em vinte parágrafos de uma linha sobre o que umas bolachas belgas numa sala de espera lhe ensinaram sobre liderança disruptiva, com a frase final "agree?" e quatro mil reações de pessoas que também nunca tiveram férias. Tu fazes scroll em silêncio e voltas ao teu pytest, que passa todo a verde, e sentes uma paz que não sentias desde que o estagiário carregou em :q!.
Agora estamos em outubro e corre tudo bem, e é precisamente por isso que já foste sondado por uma startup de Matosinhos que quer pôr IA generativa a prever a frescura das sardinhas através de fotografias tiradas na lota, e que te oferece equity num token chamado $SARDA e o cargo de Chief Fish Officer. Tu dizes que não, claro que não, que estás muito bem onde estás, mas não apagas a mensagem. Na sexta à tarde o recrutador volta a escrever a perguntar se tens um minutinho para uma call rápida.
epílogo
Quando chegas ao fim disto, percebes que começaste num docker compose up que não deu erro e acabaste a renovar um domínio com o MB Way, e que pelo meio houve três seniores a chorar com uma seta e um Excel a correr uma fintech e uma regex que pediu direitos laborais e um backup numa pen algures no Brasil. Nada disto foi inventado, só ligeiramente reorganizado, com os nomes trocados para proteger os culpados.
Já há quem diga que esta novela começa a chatear, e tem razão, porque até eu já estou farto do gajo das meias e do Diogo Freitas e de mim próprio. Mas a call rápida nunca acaba, porque a informática nunca acaba, e por isso isto também não acaba, só muda de assunto. Vou continuar a escrever sobre as merdas da informática e sobre as outras merdas que me enervam, sem Kafka, sem fruta à quarta e sem pedir desculpa pelo incómodo. E se alguém tiver um minutinho, que o gaste a ler, porque eu não atendo. Até breve, ou não.
quando metes no CV que tens oito anos de Kubernetes porque uma vez correste um docker compose up e não deu erro e chamam-te para uma entrevista numa fintech em Alvalade onde o gajo que te recebe está de meias e chinelos e diz que ali são todos uma família e mete-te numa sala com um quadro branco e três seniores que não veem a luz do sol desde o Angular 1 e pedem-te para inverter uma árvore binária e tu nem sabes o que é uma árvore binária direita quanto mais invertida então desenhas um retângulo e escreves "microserviço" lá dentro e eles acenam com a cabeça e tu ganhas confiança e desenhas mais sete retângulos e uma seta a dizer "Kafka" e o mais velho começa a chorar porque é exatamente a arquitetura que têm em produção e ninguém sabe como funciona e oferecem-te o lugar de tech lead ali mesmo com um ordenado de merda mas com fruta à quarta-feira e tu aceitas e no primeiro dia dão-te acesso root a tudo e às dez e um quarto fazes um drop à base de dados de produção a pensar que era a de testes e o backup mais recente é de 2019 e está numa pen que o antigo CTO levou para o Brasil e tu não consegues fazer nada senão atualizar o LinkedIn para "open to work" enquanto o gajo das meias te pergunta no Slack se tens um minutinho para uma call rápida
parte 2
quando entras na call e o gajo das meias tem a câmara ligada e está sentado numa bola de pilates com um fundo virtual de Bali e diz que não é nada de grave é só para alinharmos e tu já estás a preparar um post-mortem mental com a palavra "aprendizagens" a negrito mas ele explica que afinal ninguém deu pelo drop porque aquela base de dados não era usada desde a migração para a cloud em 2021 e que a produção a sério corre num Excel partilhado no OneDrive da contabilista chamado Final_v3_ESTE_SIM_agora.xlsx com macros em VBA que fazem chamadas a uma API que ninguém sabe onde está alojada e tu respiras de alívio e ele diz que até gostou da tua proatividade e que por isso vais liderar a migração do Excel para microserviços e tu dizes que claro já tinhas desenhado isso na entrevista e ele diz que sabe que foi exatamente por isso que te contrataram e marca-te um kickoff com os três seniores que agora te tratam por mestre e o mais velho traz-te um café da máquina como oferenda e pergunta baixinho se o Kafka é obrigatório e tu dizes que o Kafka é sempre obrigatório e ele volta a chorar mas desta vez de alegria e passas a semana a fazer diagramas no Miro com uma cor diferente para cada retângulo e na sexta à tarde apresentas à administração que não percebe nada mas fica muito impressionada com uma seta a dizer "event-driven" e aprovam meio milhão para a transformação digital e tu pedes um aumento e dão-te um vale de desconto num ginásio em Telheiras e uma t-shirt da empresa em tamanho XS e na segunda de manhã descobres que a contabilista foi de férias para Tavira e mudou a password do OneDrive e o Excel tem uma referência circular desde sábado e os pagamentos de quatro mil clientes estão parados porque alguém escreveu "N/A" numa célula que devia ser um IBAN e as redes sociais já estão cheias de gente a perguntar onde está o dinheiro e tu pedes a uma IA "como fazer rollback de um Excel" e ela responde com imensa confiança uma coisa que não funciona e às onze e meia o gajo das meias aparece à tua secretária agora de sandálias com peúgas o que é claramente uma escalada e diz que os investidores estão a ligar e que vão fazer um all-hands às três para mostrar transparência e tu mudas o LinkedIn de "open to work" para "open to anything" e no mesmo minuto recebes uma mensagem de um recrutador a dizer que viu o teu perfil e tem uma oportunidade incrível numa scale-up de IA no Beato onde são todos uma família e se tens um minutinho para uma call rápida
parte 3
quando entras na call e o recrutador tem um headset com luzes RGB e diz que a scale-up do Beato está a construir um agente autónomo que substitui equipas inteiras de engenharia e precisam de alguém com experiência em Kafka e tu dizes que Kafka é a tua língua materna e começas em março num open space com pufes em forma de GPU onde não há fruta à quarta-feira mas há tostas de abacate e chá de matcha que sabe a relva cortada com ambição e o CTO de vinte e três anos explica-te que o produto é um LLM que gera YAML que gera Terraform que gera mais LLMs e tu perguntas pela documentação e ele aponta para um README com uma única linha a dizer "TODO" e passas a primeira manhã a tentar sair do vim até um estagiário carregar em :q! com a solenidade de quem desativa uma bomba e descobres que o node_modules pesa mais do que o dataset de treino e que metade do código está indentado com tabs e metade com espaços por causa do sénior que ninguém sabe bem quem é mas que faz commits diretamente na main às três da manhã com mensagens como "ajustes" e "agora sim" e "desculpem" e que segundo a lenda uma vez resolveu um merge conflict apagando o outro programador do GitHub e em maio o agente autónomo começa a alucinar e responde aos clientes com sonetos sobre 0.1 + 0.2 não dar 0.3 e o CTO diz que é uma feature emergente e numa sexta às cinco e meia fazes deploy para produção porque deploys à sexta são para fracos e tudo vai abaixo incluindo o status page que está no mesmo cluster e passas a noite a ler logs em três fusos horários diferentes um deles inventado e às cinco da manhã descobres que o problema era um registo de DNS que expirou porque o domínio estava no cartão pessoal do fundador que foi fazer um retiro de silêncio no Nepal e renovas o domínio com o teu MB Way e o CTO publica no LinkedIn uma thread sobre resiliência e liderança sem te mencionar e tu fazes git blame e aparece o teu nome em todos os commits incluindo alguns de 2019 e começas a suspeitar que o antigo CTO da fintech de Alvalade também tinha uma pen e nisto o Slack apita e é o gajo das meias a perguntar se tens um minutinho para uma call rápida porque encontraram o backup
parte 4
quando finalmente arranjas emprego numa empresa de jeito em Lisboa onde se programa em Python com testes e type hints e code reviews feitos por adultos e não há pufes nem matcha nem tostas de abacate nem bolachas de espécie nenhuma mas há um ordenado que chega ao fim do mês e um plano de férias aprovado sem ninguém chorar e pela primeira vez o curso da Udemy de 9,99 dólares que compraste em promoção às duas da manhã começa a render porque afinal sabes mesmo o que é uma list comprehension e um decorator e até explicas a um júnior a diferença entre is e == e ele olha para ti como os três seniores de Alvalade olhavam para a seta do Kafka e nas pausas abres o LinkedIn e lá está o Diogo Freitas que afinal nunca trabalhou em lado nenhum e que só conheces dali porque é um influencer de produtividade que publica fotos de si próprio de fato de treino às quatro e meia da manhã com textos sobre como as férias são uma construção social e que quem trabalha só vinte e quatro horas por dia mais seis à noite não quer verdadeiramente vencer e esta semana publicou uma reflexão em vinte parágrafos de uma linha sobre o que umas bolachas belgas numa sala de espera lhe ensinaram sobre liderança disruptiva com a frase final "agree?" e quatro mil reações de pessoas que também nunca tiveram férias e tu fazes scroll em silêncio e voltas ao teu pytest que passa todo a verde e sentes uma paz que não sentias desde que o estagiário carregou em :q! e agora estamos em outubro e corre tudo bem e é precisamente por isso que já foste sondado por uma startup de Matosinhos que quer pôr IA generativa a prever a frescura das sardinhas através de fotografias tiradas na lota e que te oferece equity num token chamado $SARDA e o cargo de Chief Fish Officer e tu dizes que não claro que não que estás muito bem onde estás mas não apagas a mensagem e na sexta à tarde o recrutador volta a escrever a perguntar se tens um minutinho para uma call rápida
epílogo
quando chegas ao fim disto e percebes que começaste num docker compose up que não deu erro e acabaste a renovar um domínio com o MB Way e que pelo meio houve três seniores a chorar com uma seta e um Excel a correr uma fintech e uma regex que pediu direitos laborais e um backup numa pen algures no Brasil e que nada disto foi inventado só ligeiramente reorganizado com os nomes trocados para proteger os culpados e que já há quem diga que esta novela começa a chatear e tem razão porque até eu já estou farto do gajo das meias e do Diogo Freitas e de mim próprio mas a call rápida nunca acaba porque a informática nunca acaba e por isso isto também não acaba só muda de assunto e vou continuar a escrever sobre as merdas da informática e sobre as outras merdas que me enervam sem Kafka sem fruta à quarta e sem pedir desculpa pelo incómodo e se alguém tiver um minutinho que o gaste a ler porque eu não atendo até breve ou não
